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A fotografia permite-nos compreender a evolução da paisagem ao longo do tempo, preservando a memória histórica das comunidades locais.
Apesar da orografia acentuada, a população sempre procurou tirar o maior proveito das suas terras. A densa floresta da ilha foi desbravada para dar lugar a campos agrícolas e habitações. A agricultura é desde o início do povoamento o principal meio de subsistência e o maior moldador da paisagem. Para conseguir a maior superfície agrícola possível, construi-se os socalcos com os muros de pedra emparelhada, contrariando o relevo natural das encostas. Consequentemente, o agricultor câmara-lobense sempre produziu uma diversidade de culturas, apenas condicionado pela disponibilidade de água e pelo clima. Ao subir em altitude, observa-se a transição das principais culturas, desde a banana, cana-de-açúcar, vinha até as árvores de fruto.
O Curral das Freiras destaca-se pela sua engenhosidade. Território caracterizado por uma enorme depressão geomorfológica, rodeado por vertentes que se estendem por várias centenas de metros de altitude, acaba por ficar um bocado isolado do resto da ilha. Daí os seus habitantes foram “obrigados” a produzir tudo o que necessitavam, tornando-se autossuficientes. Paralelamente à agricultura e silvicultura, nas escarpas vertiginosas praticavam a pastorícia.
Por outro lado, pela sua proximidade ao mar, Câmara de Lobos desenvolve atividades económicas marítimas, destacando-se a prática secular da pesca, sendo considerado um dos centros piscatórios históricos da região. Outrora, realizou-se também a extração de sal marinho e a produção de cal que se realizavam no sítio da Trincheira. Este último era utilizado na construção civil, não sendo o único contribuído do concelho para esta área. As freguesias de Câmara de Lobos e do Estreito foram responsáveis pelo fornecimento de material geológico para a construção de alguns dos monumentos da ilha. A título de exemplo, a Sé Catedral do Funchal foi construída com a cantaria mole extraída das arribas da atual Área Protegida do Cabo Girão.
A paisagem câmara-lobense é um testemunho das vivências da sua população e da sua adaptabilidade às adversidades ao longo dos anos.
A vegetação da ilha da madeira que cobria todo o seu espaço, desde a beira-mar até as zonas mais altas, era maioritariamente uma floresta de lauráceas, árvores como o loureiro, o til, o vinhático e o barbusano, hoje conhecida pelo nome de Laurissilva. Esta floresta relíquia existe há cerca de 20 milhões de anos e chegou a ocupar extensas áreas do mediterrânio e do sul da europa. Com as mudanças climáticas, principalmente devido à última era glaciar, a Laurissilva desapareceu dos territórios continentais, resistindo na região da Macaronésia (constituída pelos arquipélagos dos Açores, Cabo Verde, Canárias e Madeira), devido ao clima amenizado e envolvência marítima.
Com o início da colonização da região no século XV, a ilha esteve sujeita a vários ciclos económicos e agrícolas, destacando-se a produção vinícola, hortícola e frutícola. Para tal, houve uma necessidade de espaço para a agricultura e a expansão urbana, a qual resultou na perda significativa de áreas de Laurissilva para fins agrícolas e habitacionais.
Atualmente, na área administrativa do concelho de Câmara de Lobos, existe apenas uma pequena macha de Laurissilva classificada, localizada na bacia hidrográfica da Ribeira do Cidrão, na freguesia do Curral das Freiras. Integra o Património Mundial Natural da UNESCO, as Reservas Biogenéticas do Conselho da Europa e a Rede Natura 2000.
Para além de estar completamente inserido no Parque Natural da Madeira, o Curral das Freiras é ainda circundado pelo Maciço Montanhoso, reconhecido pela sua importância geológica, paisagística e ecológica. Este integra a Rede de Monumentos Naturais da RAM e a Rede Natura 2000, como Zona Especial de Conservação (ZEC) e Zona de Proteção Especial (ZPE).
Na zona costeira do concelho, está delimitada uma das mais recentes áreas protegidas da região. A Área Protegida do Cabo Girão foi criada em 2017, com o intuito de salvaguardar o seu património natural, histórico, cultural e paisagístico.
Tornou-se pertinente a atribuição de diferentes classificações que procuram salvaguardar as especificidades e exigências de cada unidade de intervenção. A área protegida câmara-lobense engloba assim uma área marinha, o Parque Natural Marinho do Cabo Girão e, duas áreas terrestres classificadas como Monumento Natural e Paisagem Protegida do Cabo Girão. Respetivamente, o Parque Natural Marinho tem como limites territoriais, a Sul, a batimétrica dos 50 metros e a Norte a curva de nível dos 10 metros acima da linha de costa, definida pela amplitude média das marés. A delimitação a Este é definida pela Ribeira da Alforra e a Oeste pela Ribeira da Quinta Grande.
Em domínio terrestre, os limites territoriais do Monumento Natural do Cabo Girão englobam, toda a área de encosta delimitada a Este pelo Boqueirão e a Oeste pela Ribeira da Quinta Grande, a Sul pela base da arriba e a Norte pela linha de início do desnível orográfico (excluindo os terrenos agrícolas). A área de Paisagem Protegida abrange toda extensão dos terrenos agrícolas das Fajãs, delimitada pelo Boqueirão a Este e a Oeste pela Ribeira da Quinta Grande.
Complementarmente, a rede ecológica europeia Rede Natura 2000, classifica o Cabo Girão como de Sítio de Importância Comunitária (PTMA0011 SIC Cabo Girão). Integram esta classificação sítios que contribuam de forma significativa para manter ou restabelecer um tipo de habitat natural do anexo B-I ou de uma espécie do anexo B-II, num estado de conservação favorável e manter a diversidade biológica da referida região biogeográfica.
Habitado desde o século XV, inicialmente as terras do Curral das Freiras pertenceram a João Gonçalves Zarco, primeiro capitão donatário do Funchal, que posteriormente doou as suas terras a João Ferreira e à sua mulher Branca Dias, em 1462. Este território era utilizado para a pastagem de gado, principalmente caprino, pressupondo-se que a origem da designação de Curral refere-se às características físicas favoráveis para a pastorícia.
Em 1480, esta vasta propriedade foi vendida ao segundo capitão donatário do Funchal, João Gonçalves da Câmara que, em 1492, entrega ao Convento de Santa Clara como dote das suas filhas Elvira e Joana que se juntaram ao convento como noviças. Assim, o Curral passou a dominar-se “Curral das Freiras”.
Com uma área administrativa de 25,07 km², partilha fronteiras com os concelhos da Ribeira Brava a Oeste, São Vicente e Santana a Norte, Funchal a Este e a Sul com as freguesias do Jardim da Serra e Estreito de Câmara de Lobos. Encontra-se subdividida nos seguintes sítios: Achada, Balseiros, Capela, Casas Próximas, Colmeal, Fajã dos Cardos, Fajã Escura, Lombo Chão, Murteira, Pico do Furão, Terra Chã e Seara Velha.
A sua paisagem montanhosa e o seu isolamento geográfico conferem ao Curral uma identidade cultural única, sendo conhecido pela sua comunidade resiliente empreendedora. O relevo acidentado e a secular ligação à pastorícia e à agricultura, levaram à criação de uma extensa rede de caminhos pedonais que, ao longo dos séculos, foram o garante da subsistência, das trocas comerciais e das relações sociais com os que estavam para além do maciço montanhoso central. Hoje, este património histórico constitui um enorme atrativo para os amantes da natureza, do pedestrianismo, dos desportos de ar livre e daqueles que pretendem chegar a pé a outros pontos da ilha.
A freguesia da Quinta Grande foi criada a 24 de julho de 1848 por carta régia, na sequência do desmembramento de alguns sítios das freguesias do Campanário e de Câmara de Lobos. Apesar desta freguesia ter alcançado a sua independência apenas no século XIX, a sua história remonta ao século XVI, aquando das terras da Quinta Grande ainda pertenciam a João Gonçalves Zarco.
Com uma área administrativa de 3,89 km², partilha fronteiras com a freguesia de Campanário a Oeste (concelho da Ribeira Brava), com a freguesia de Câmara de Lobos a Este e com a freguesia de Campanário (Fajã dos Padres) e o Oceano Atlântico a Sul. Encontra-se subdividida nos seguintes sítios: Aviceiro, Fontaínhas, Fontes, Igreja, Lombo, Quinta, Ribeira do Escrivão, Vera Cruz e Câmara do Bispo.
Até chegar à atual denominação, estas terras tiveram diversas designações, maioritariamente relacionadas com o seu proprietário. Em 1501 era conhecida por Quinta do Cabo Girão, seguindo-se as denominações de Quinta de Manuel de Noronha, Quinta de D. Maria de Ataíde, Quinta de Luís de Noronha, Quinta de Fernão de Noronha, Quinta dos Padres, Quinta da Companhia, sendo ainda cognominada em documentos oficiais de Quinta da Vera Cruz, e finalmente “Quinta Grande”. Numa alusão evidente à sua grandeza em termos da dimensão, a sua atual designação surgiu no final do século XVI, enquanto propriedade dos jesuítas.
A paisagem humanizada desta freguesia é resultado da atividade agrícola desenvolvida ao longo dos séculos. Inicialmente, a agricultura focava-se nas culturas de sequeiro, como o trigo, centeio e cevada, porque as nascentes e as linhas de águas eram insuficientes para culturas de rega mais exigentes. Paralelamente, nos terrenos com uma orografia mais acentuada, cultiva-se a vinha. No século XX, após a construção da Levada do Norte, a agricultura transitou para horticultura e fruticultura, sendo a freguesia reconhecida atualmente por esta produção.